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Posted by : Matheus Paulino 10/10/2013


Alguns anos atrás, eu estava na loja de roupas de uma amiga quando um cara com uma tatuagem no rosto entrou e perguntou se ela tinha troco para uma nota de US$10. A Laura, uma garota em geral muito simpática, disse para ele se foder e sair fora. O homem da tatuagem e eu ficamos chocados. Quando perguntei por que ela tinha feito isso, ela disse: “Sabe, quando uma pessoa faz uma tatuagem na cara, ela basicamente está optando por sair da sociedade. Esse cara queria que eu expulsasse ele daqui”.
Até concordei com a Laura na época (mas só porque eu estava tentando pegar ela), mas desde então tenho questionado essa postura. Será que as pessoas tatuadas no rosto querem mesmo ser tratadas como lixo? A resposta é, obviamente, “Não”. Mas eu tinha que descobrir por mim mesmo. Então, quando a VICE me pediu para andar por aí com a fuça decorada, como um mendigo anarquista que anda com o cachorro amarrado numa corda, aceitei a oportunidade na hora.

A Aplicação
O primeiro passo foi encontrar alguém que fizesse o trabalho. Achei uma especialista em maquiagem de cinema chamada Rachel Renna no Craigslist e ela concordou em vir até minha casa e criar uma tatuagem tribal verossímil em meu rosto. Ela me disse logo de cara que a “tattoo” duraria o quanto eu quisesse, desde que eu fizesse pequenos retoques diários, e que só sairia completamente com álcool 99%.
Só para constar, não tenho nenhuma tatuagem e é muito provável que nunca vou ter. Não porque eu não goste de tatuagens ou seja um tremendo frangote, mas porque, se fizesse uma, provavelmente não ia parar mais e ia acabar como aquele cara que se parece com um gato. O que seria ótimo se eu fosse alérgico a sexo.
A Rachel chegou e começou a fazer a tatuagem enquanto meus colegas de apartamento ficavam em volta, rindo e me chamando de Lil Wayne. Fui ficando nervoso. Todo mundo tem uma imagem de si mesmo na cabeça e essa, definitivamente, não era a minha. As pessoas que fazem isso devem ter um ego enorme ou ego nenhum.

Primeiros Dias
Quando você tem uma tatuagem facial, as pessoas vão te olhar de dois jeitos na rua: a encarada ou o olhar breve. O olhar breve é quando a pessoa dá uma rápida olhada para você e os olhos delas vão direto para o chão. Por dentro, elas estão dizendo: “Não olha, não olha, não olha!”. A encarada é quando o corpo da pessoa para totalmente, os olhos dela ficam confusos e revoltados, e você tem a sensação de que ela vai gritar com você, dar um soco na cara ou ligar para sua mãe e dizer que ela devia ter feito um aborto. Os dois tipos de olhar me faziam sentir tanto socialmente superior como completamente desconfortável.
Cruzei com gente que eu conhecia o dia inteiro. As críticas delas a meu novo estilo de vida variavam de “Você estragou seu rostinho lindo” para “Você estragou sua vida”. Estranhos me encaravam em todo lugar que eu ia. A atenção se tornou tão irritante que não aguentei mais, fui para casa e me tranquei no quarto como um adolescente gótico revoltado.
Mais tarde, recebi uma mensagem de uns amigos que estavam num bar. Sentido que alguns drinques talvez pudessem melhorar meu humor escroto, tirei minha cara idiota do travesseiro e fui para o bar onde eles estavam. Minhas memórias daquela noite são nebulosas, mas lembro de um cara do lado de fora do bar dizendo “E aí, Mike Tyson?”. 

No dia seguinte, acordei de ressaca e parecendo um puma que tinha tomado muitas caipiroskas de kiwi no bar. A maquiagem estava toda borrada e nojenta. A testa e o nariz da tatuagem estavam destruídos por causa do suor de bêbado da noite anterior, então, minha namorada teve que consertar isso para mim. Fiquei só com as partes das bochechas e das têmporas, e concordamos que agora eu parecia mesmo com o Mike Tyson. Isso se o Mike Tyson fosse um garoto branquelo, cabeludo e efeminado do Canadá, né?


Trampando
Trabalho como garçom num restaurante bastante casual. Mandei uma mensagem para minha gerente alguns dias antes do experimento, contando sobre minha tatuagem e perguntando se eu ainda podia ir trabalhar. Ela disse que não gostava muito da ideia, mas desde que eu não tatuasse um pinto na cara tudo bem. Ela também disse que se o dono do restaurante aparecesse, ele ia dizer que eu não podia trabalhar assim e ia me mandar para casa. Torci secretamente para ser demitido.

A maioria das pessoas me ignorou, mas outras mesas logo me envolveram em conversas bêbadas sobre meu rosto. Duas mulheres de uns 30 e poucos anos ficaram me adulando e uma delas disse: “Isso me faz imaginar as coisas fodidas que devem passar por sua cabeça”. Dava para sentir ela me despindo com os olhos e fui ficando cada vez mais nervoso quando passava pela mesa delas. Outro cara me ofereceu a mão num "toca aqui" e disse: “Bem-vindo. Sua vida agora é teatro”.
Consegui terminar o expediente sem ser demitido. O que foi meio broxante, já eu tinha passado os dias anteriores procurando outros trabalhos pelo Craigslist, só para garantir. Um dos lugares onde me inscrevi até chegou a marcar uma entrevista. Então, no dia seguinte, acordei cedo, me vesti bem e fui para a minha entrevista num restaurante sofisticado do distrito financeiro de Toronto.

Meu potencial empregador suspirou e me deu a encarada logo que entrei. Ele me convidou para sentar, olhou meu currículo e disse que eu tinha muito experiência com restaurantes, e eu concordei. Ele perguntou se eu era melhor servindo mesas ou no bar. Eu disse, de uma maneira confiante e detalhada, que sou bom nas duas coisas. Minha resposta foi recebida com um “Ótimo, nós vamos te ligar durante a semana”, enquanto ele me mostrava a saída. Agradeci a oportunidade e apertamos as mãos. A entrevista durou menos de cinco minutos.
Surpreendentemente, eles nunca me ligaram de volta.
Os Últimos Dias

Minha namorada acabou me dizendo que a tatuagem estava afetando a maneira como ela se sentia sobre mim. Fiquei puto, começamos a brigar e me vi dizendo “Continuo sendo a mesma pessoa por dentro!”. Piegas, mas verdade.
Decidi que não podia deixar essa tatuagem me derrotar e que eu faria algumas coisas que fizessem eu me sentir melhor comigo mesmo.
Então, fui visitar meu primo e sua filhinha de um ano, Aruyah. Ela é muito fofa e eu sempre me senti muito bem passando algum tempo com ela.

A Ariyah chorava toda vez que olhava para mim. Tenho quase certeza que a deixei traumatizada. Quando for adolescente, ela não vai confiar em mim e não vai saber o porquê.
Resignado com uma vida ridícula, saí para beber com alguns amigos. Assim que sentamos, a mesa na frente da nossa me encarou até me deixar desconfortável, então, encarei de volta como um desafio. Aí uma das garotas levantou, veio até mim e disse: “Não pode ser de verdade”. Cansado dessa conversa, mas incapaz de entregar a mentira, eu disse: “É de verdade”.
“Mas você não parece um cara que passou a vida inteira usando drogas. Isso não pode ser de verdade.” Ela insistiu em tocar a tatuagem e começou a passar a mão agressivamente no meu rosto. Tentei impedir, mas ela tinha a força de uma garota bêbada e fui forçado a deixar ela tocar o meu rosto.

 A maquiagem era forte e não borrou. Ela olhou para os próprios dedos, se afastou e disse: “Ai meu deus...”. Então ela foi para o banheiro, voltou com uma toalha de papel molhada e tentou esfregar na tatuagem. Finalmente, admiti a derrota e contei para ela que a tattoo era falsa.
Conclusão
Tenho que admitir, ter uma tatuagem facial foi divertido na maior parte do tempo e ter que tirá-la me deu a sensação de que alguma coisa estava faltando. Em toda esta semana, nenhuma pessoa me deu nenhuma boa razão para não ter uma tatuagem no rosto. Você nunca vai precisar se preocupar em ser invisível; parece que todo mundo repara em você; estranhos querem falar com você; algumas pessoas até saem do caminho delas para mostrar como estão de boa com sua decisão de estragar permanentemente sua cara e te pagando uma bebida ou sorrindo exageradamente enquanto apertam sua mão. Claro, você pode nunca conseguir um trabalho decente e sua namorada pode achar sua tattoo broxante pacas, mas a parte mais difícil é ter que ficar explicando sua decisão de vida para todo mundo com que você se encontra.
 Por Brad Casey, da revista VICE

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